Superciclo sim, mas não para todas as commodities: economistas explicam os sinais nas importações chinesas

Minério de ferro pode estar em fim de ciclo depois de muito investimento global em infraestrutura, mas há outros metais mais promissores
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MARINGÁ | invistaja.info — As importações da China cresceram 28,1% em julho, número abaixo dos 31,7% esperados pelos economistas. Nesta segunda-feira (9), a notícia trouxe bastante volatilidade para o mercado de commodities, uma vez que o país é o maior comprador mundial desses produtos. O minério de ferro caiu 4%, enquanto o petróleo recua 3% às 15h26 (horário de Brasília).

Segundo Roberto Dumas, professor do Insper, é preciso entender que quando se fala em superciclo de commodities não quer dizer que todos esses produtos vão se valorizar ao mesmo tempo nem na mesma medida.

Para ele, é preciso entender o contexto dessa recuperação econômica da China no pós-pandemia para poder traçar um horizonte para cada um dos produtos de baixo valor agregado.

“O Partido Comunista Chinês fez um investimento de guerra para o país não entrar em recessão [no ano passado]. Quando você tem uma ditadura não pode se dar ao luxo de ter recessão, então houve muito dinheiro gasto com infraestrutura, algo que impulsionou o preço do minério. Agora a situação é bem diferente, a pandemia já acabou lá”, afirma.

Na mesma linha, Gilberto Cardoso, analista de commodities da Ohmresearch, diz que é preciso tomar cuidado com a expressão “superciclo”.  Cardoso lembra que a China foi o primeiro país a entrar e o primeiro a sair da crise por conta da Covid-19, de modo que, graças a essa recuperação, é natural que o gigante asiático passe a crescer em níveis mais baixos daqui para frente.

“Eu não sou a favor da expressão superciclo porque ainda estamos no meio de uma pandemia e a retomada nos leva a patamares pré-crise. Os aumentos de demanda que vemos são pontuais e variam em magnitude e motivos de commodity a commodity”, destaca.

Na opinião do analista da Ohmresearch, o minério encerrou seu ciclo de alta que levou a tonelada de US$ 88 para US$ 220 de março de 2020 a julho de 2021.

A mesma coisa estaria acontecendo com o petróleo, que saiu de US$ 27 para US$ 76 o barril em igual período, com a diferença de que a existência de um cartel como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) torna a situação um pouco mais turva.

“Cartéis regulam a oferta, então mesmo que o consumo se estabilize pode ser que o preço suba por uma combinação de redução de produção. Por isso não me atrevo a precificar petróleo, só entendo que no longo prazo o setor de combustíveis também passa por transformações”, aponta, em referência ao aumento do uso de energias renováveis e ao boom de carros elétricos.

Se minério e petróleo estão no fim de seus ciclos, o mesmo não poderia ser dito de outras commodities. Roberto Dumas acredita que o cobre tem tudo para se valorizar, pois é o melhor metal para conduzir eletricidade.

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Gilberto Cardoso diz que seu call de longo prazo para commodities seria se expor mais a alimentos, cobre, lítio e níquel, uma vez que o mundo irá consumir mais comida e os veículos elétricos e smartphones precisarão de mais baterias.

A opinião de Dumas também é de que os alimentos devem ganhar força com a guinada da China em se tornar uma economia voltada ao consumo e não mais à exportação, algo que há anos o presidente Xi Jinping tenta levar adiante.

No entanto, o analista Leandro Fontanesi, do Bradesco BBI, discorda dessa avaliação. Ele escreve em relatório que historicamente os preços de commodities agrícolas têm ciclos de valorização (como o que vem ocorrendo de 2019 a 2021) de dois anos, em média, com um incremento de aproximadamente 20% ao ano no valor de cada grão, ao passo que os ciclos de queda duram, em média, três anos e meio e os preços caem em torno de 10% ao ano.

“Esperamos um declínio de 30% nos preços de produtos agrícolas até 2024, ao mesmo tempo em que o consenso da Bloomberg projeta uma retração de 15%”, ressalta Fontanesi.

Os motivos para essa previsão não são meramente estatísticos. O analista do Bradesco BBI considera provável que a China corte importações de produtos agrícolas até 2022 depois dessas compras avançarem 50% nos últimos dois anos.

“Este aumento nas importações ocorreu porque a China dobrou o número de porcos nos últimos dois anos, depois de perder animais para a peste suína africana de 2018, e precisava comprar comida para alimentá-los. A população de suínos da China é relevante para a agricultura global porque a carne de porco é de longe a proteína mais importante do país e as necessidades de ração da China são responsáveis ​​por aproximadamente 15% da demanda global de trigo, milho e soja”, destaca o Bradesco.

Todavia, desde junho de 2021, as margens da indústria de suínos chinesa se tornaram negativas com um excesso de oferta de porcos e custos mais altos de grãos. “Nós estimamos que os preços do milho na China (correlacionados com os EUA e o Brasil) têm que cair de 20% a 30% para que as margens voltem a convergir para a média histórica.”

Apesar disso, Dumas defende que essa é uma idiossincrasia do mercado de proteína animal, e não muda o fato de que o governo voltou a querer rebalancear a economia na direção do consumo ao mesmo tempo em que a variante delta do coronavírus se prolifera globalmente. “A China precisa ter alimento disponível se tiver que fazer lockdown”, sentencia.

De todo modo, as mudanças estruturais pelas quais o mundo passa, e não só a China, indicam que realmente há commodities e commodities no mercado. E analistas como Gilberto Cardoso constatam que não há tantas empresas brasileiras expostas a essas matérias-primas do futuro.

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REFLEXÃO: Michael Batnick, gestor de patrimônios da Ritholtz: Evitar erros catastróficos é mais importante do que construir o portfólio perfeito.

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